terça-feira, 25 de outubro de 2011

Canôn

== Cânone do Antigo Testamento ==
Antes mesmo de Deus ter ordenado a Moisés que escrevesse, pela primeira vez,
um memorial a respeito da vitória de seu povo sobre os amalequitas, a Palavra de Deus
já circulava entre os homens sob o método da transmissão oral: "Escuta-me,
mostrar-te-ei; e o que tenho visto te contarei; o que os sábios anunciaram, ouvindo-o de
seus pais, e o não ocultaram ...". ([[Jó]] 15:17,18)
Os Evangelhos registraram várias citações de [[Jesus]] do Antigo Testamento,
comentando sobre o Gênesis, Deuteronômio, Números, I Samuel, Salmos, Malaquias,
Daniel, reconhecendo-os como a Palavra de Deus ([[Evangelho de Mateus|Mateus]]
12:3; 19:4; 22:37-40).
Para se conferir a confiança que os escritores do [[Novo Testamento]] tinham do Antigo,
basta conferir as centenas de citações da [[Torá|Lei]], dos profetas e outros escritos.

Acredita-se que começando por Moisés, à proporção que os livros iam sendo escritos,
eram postos no [[Tabernáculo]], junto ao grupo de livros sagrados. Especula-se que
tivesse sido Esdras quem reuniu os diversos livros e os catalogou, desse modo
estabelecendo a coleção de livros inspirados por Deus. Desses originais, os copistas ou
[[escriba]]s fizeram cópias para uso das sinagogas largamente disseminadas. Porém a
crítica não aceita a tese de que livros posteriores ao tempo do profeta figuram na [[Bíblia
Hebraica]], como é o caso do Livro de Daniel. Segundo especialistas, isso explicaria
porque o Livro de Daniel não figura entre os escritos proféticos, mas nos hagiógrafos.
O prólogo da versão grega do Eclesiástico, datado em 130 a.C parece já confirmar a
suspeita dos estudiosos modernos. Com efeito nele lemos: ''"Pela Lei, pelos Profetas e
por outros escritores que os sucederam, recebemos inúmeros ensinamentos importantes
(...) Foi assim que após entregar-se particularmente ao estudo atento da Lei, dos
Profetas e dos outros Escritos, transmitidos por nossos antepassados [...]

Nota-se que o cânon indicado neste escrito considera canônicos livros posteriores ao
tempo dos profetas.

As descobertas do Mar Morto e Massada mostram que entre os antigos judeus ainda
não havia um cânon bíblico fixo ou instituído, que só veio depois do século I a criar corpo,
e mesmo assim com muitas divergências.

Alguns dizem que o Cânone Hebraico de 39 livros, só foi realmente fixado no '''[[Concílio
de Jâmnia]]''' em [[100]], embora nesse mesmo concílio livros como o de Ester, Daniel,
Cântico dos Cânticos, ficaram de fora do cânon, que só veio a ser fixado mesmo no
[[século IV. Estudiosos como Leonard Rost garantem que tais decisões demoraram
muito para serem aceitas e até hoje não tiveram aceitação em muitas comunidades
judaicas; como o caso dos judeus do Egito, quem tem um cânon semelhante ao
Católico e Ortodoxo.

O [[Concílio de Jâmnia]] rejeitou todos os livros e demais escritos e considerando-os
como [[apócrifos]], ou seja, não tendo evidências de inspiração por Deus e fonte de fé,
tanto quanto da verdadeira autoria. Houve muitos debates acerca da aprovação de certos
livros, como Ester e Cântico dos Cânticos, conforme registro da Mishiná. A tese de que
o trabalho desse Concílio foi apenas ratificar aquilo que já era aceito pela grande maioria
dos judeus através dos séculos, carece de fundamento científico e é rejeitada pela
majoritariamente pelos especialistas.

Até os primeiros quatro séculos, na Igreja Primitiva não havia um parecer oficial sobre o
Cânon do AT. As opiniões eram muito diversas. Pais da Igreja como Melitão, Cipriano e
Rufino postulavam pelo Cânon Hebraico (com 39 livros, excluindo os deuterocanônicos).
Já Ireneu, Justino e Agostinho defendiam o Cânon Alexandrino (com 46 livros, incluindo
os [[Deuterocanônicos]]). Jerônimo começou negando a canonicidade dos
[[Deuterocanônicos]], embora os tenha incluíndo em sua [[Vulgata]]. Escritos seus
posteriores mostram que esta sua posição inicial foi revista, é o que se verifica em sua
Carta a Rufino e outra a Paulino, Bispo de Nola.

No final do séc. IV, Concílios Ecumênicos (significa mundial) reafirmaram o Cânon
Alexandrino. É o caso dos Concílios de Roma (382 d.C, dando origem ao Cânon
Damaseno), Hipona I (cânon 36, 393 d.C), Cartago III (cânon 47, 397 d.C), IV (cânon 24,
417 d.C) e Trullo (cânon 2, 692). Um documento conhecido como Decreto Gelasiano
(496 d.C) também opta pelo Cânon Alexandrino.

As Igreja Orientais também fizeram sua opção pelo Cânon Alexandrino, adotando a
[[Septuaginta]] como a versão oficial do AT.

Desta forma, depois do séc. IV, o Cânon Alexandrino havia obtido aceitação ampla em
toda Igreja: no Ocidente com as versões da [[Vetus Latina]] e a [[Vulgata]]. e no Oriente
com a [[Septuaginta]].


=== Novas controvérsias sobre o Cânon do AT ===
No início do séc. XV, um grupo dissidente da Igreja Copta (também chamados de
Monofisistas), conhecidos como Jacobitas questionaram o Cânon Alexandrino entre
outras coisas. Em 1441, O Concílio Ecumênico de Florença, através da Bula ''Cantate
Domino'' (4/2/1442) reafirma o caráter canônico do Cânon Alexandrino.

Com a Reforma Protestante, Lutero volta a questionar o caráter canônico dos
[[Deuterocanônicos]] do Antigo e trechos e livros Novo Testamento como a carta de
[[Epístola de Tiago|Tiago]] - [[II Pedro]] - [[II João]] - [[III João]] - [[Epístola de
Judas|Judas]] - [[Apocalipse de São João|Apocalipse de João]], negando inclusive seu
caráter eclesiástico, pois para ele estes livros eram contrários à Fé. Em 1545, é
convocado o [[Concílio de Trento]], que novamente reafirma o caráter canônico do
Cânon Alexandrino.

No início não houve consenso entre os Protestantes sobre o Cânon do AT e do NT. O
Rei Tiago da Inglaterra, responsável pela famosa tradução KJV (King James Version),
defendia que os [[Deuterocanônicos]] deveriam continuar constando nas Bíblias
Protestantes.

Logo depois a Igreja Ortodoxa Russa resolve deixar como facultativa a aceitação ou não
do Cânon Alexandrino.


Segundo a Fé Cristã, Jesus foi o redentor de quem o Antigo Testamento deu testemunho.
Neste contexto, suas palavras não podiam ter menos autoridade do que a Lei e os
Profetas. Convencidos disto, os cristãos as repetiam sempre. Em momentos oportunos
os Apóstolos e os Evangelistas colocaram parte dela na forma escrita, o que se tornou o
núcleo do cânone definido pela Igreja nos primeiros séculos.

Segundo o historiador da Igreja Primitiva, o Bispo Eusébio de Cesaréia (séc. IV), os
apóstolos e os evangelistas nunca tiveram em mente deixar qualquer coisa por escrito
(note que a grande maioria dos apóstolos nada escreveu), quando o fizeram foram
forçados por situações especiais, como a impossibilidade de se encontrar com alguma
comunidade, por exemplo (ver História Ecleisástica, III, 24,3-7).

Como no Antigo Testamento, homens inspirados por Deus escreveram aos poucos os
livros que compõem o Cânone do Novo Testamento. No ano [[100]], todos os 27 livros
canônicos do Novo Testamento estavam escritos, porém não havia ainda uma lista
autorizada de livros para o NT. Assim como o cânon do AT, o cânon do NT levou muitos
séculos para ser fixado.

Em nenhum escrito do NT consta uma lista autorizada dos livros que devem ser
considerados sagrados. Somente em 2Pd 3,15-16, o Apóstolo Pedro confessa que os
escritos do Apóstolo Paulo são Escrituras Sagradas, mas não os relaciona e nem
relacionada quais seriam os outros livros da Escritura.

A Referência mais antiga que se tem sobre o Cânon do NT se encontra em um
manuscrito descoberto pelo sacerdote italiano [[Ludovico Antonio Muratori]] no séc. XVIII,
datado do séc. II. Por causa do nome de seu descobridor, este documento ficou
conhecido como ''[[Cânon de Muratori]]''. Neste escrito estão relacinados os 4 Evangelhos,
as cartas paulinas , Judas e 1,2 João e o Apocalipse. Não são relacionadas as epístolas
Hebreus, Tiago e as de Pedro.

Muitas controvérias existiram para se reconhecer o caráter canônico de livros com
Hebreus, Tiago, Judas, Apolocalipse, 2 e 3 João e 2 Pedro. Por esta razão alguns
estudiosos os chamam de [[Deuterocanônicos]] do NT.

Da mesma forma, outros livros já estiveram no cânon NT, porém depois foram rejeitados.
É o caso da Primeira Carta de Clemente aos Coríntios (séc. I) e o Pastor de Hermas
(séc. II).

A lista completa dos livros do NT conforme existe hoje aparece pela primeira vez na
Epístola 39 de [[Santo Atanásio de Alexandria]] para a Páscoa de 367 d.C.

Esta mesma lista foi confirmada por documentos posteriores como o
[[Decreto Gelasiano]], e os Cânones de Hipona, Cartago III e IV.

Durante a [[Reforma Protestante]], Martinho Lutero demonstrou dúvida quanto à autoria
e canonicidade de alguns livros do Novo Testamento: Hebreus, Tiago, Judas e o
Apocalipse. No entanto, ao traduzir o Novo Testamento para o alemão em 1522, Lutero
traduziu esses livros perfazendo ao todo 27 livros que temos hoje, mesmo não os
considerando inspirados.

O [[Concílio de Trento]], no 1º Período (1545-48), promulgou os decretos sobre o cânon
sagrado para a Igreja Católica Romana reafirmando o Cânon do Novo Testamento também
com os 27 livros que temos hoje.

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