terça-feira, 25 de outubro de 2011

Capitulos e versículos


Já imaginámos
qual seria o nosso trabalho,
se tivéssemos de folhear as duas mil
e tal páginas da Bíblia à procura de
uma palavra ou de uma frase
para citar num artigo, num sermão
ou num encontro de catequese?
Por aqui avaliamos a vantagem
de terem dividido o seu texto
em capítulos e versículos.
Mas, quem fez esse trabalho?
O mérito deve ser repartido
por judeus, católicos e protestantes.

Quando os autores sagrados compuseram individualmente os
livros que depois formariam parte da Bíblia, não os dividiram
assim. Com efeito, ao escrever, nenhum deles imaginou que a
a sua obra viria a ser lida por milhões e milhões de pessoas e
literário  e comentando cada uma das suas frases. Eles
apenas deixaram correr a "pena" sobre o "papel", sob a
inspiração do Espírito Santo, e compuseram um texto longo e
seguido, desde a primeira até à última página.

Foram os judeus que, ao reunirem-se no dia de sábado nas
sinagogas, começaram a dividir em secções a Lei (isto é, os
cinco primeiros livros bíblicos, ou Pentateuco), e também os
livros dos Profetas, a fim de poderem organizar a leitura
contínua.

Nasceu assim a primeira divisão da Bíblia - neste caso, do
Antigo Testamento - que seria de carácter "litúrgico" visto
ser utilizada nas celebrações cultuais.

O ensaio JUDAICO
Como os judeus procuravam ler toda a Lei no decurso de um
ano, dividiram-na em 54 secções (tantas, quantas semanas
tem o ano) chamadas "perashiyyot" (= divisões). Estas
separações estavam assinaladas na margem dos manuscritos,
manuscritos, com a letra "p".

Os Profetas não foram todos divididos em "perashiyyot",
como a Lei; deles foram apenas seleccionados 54 pedaços,
chamados "haftarot" (= despedidas), assim chamados porque
com a sua leitura se encerrava, nas funções litúrgicas, a
leitura da Bíblia.

O Evangelho de São Lucas (4,16-19) conta que em certa
ocasião Jesus estava de visita a Nazaré, sua terra natal, onde
onde tinha sido criado, e quando chegou o sábado
compareceu pontualmente na sinagoga a fim de participar no
ofício como todo o bom judeu. E, estando ali, convidaram-no
a fazer a leitura dos Profetas. Então, passou para a frente,
pegou no rolo e leu a "haftarah" correspondente a esse
sábado. Lucas informa-nos que pertencia ao profeta Isaías, e
sábado. Lucas informa-nos que pertencia ao profeta Isaías, e
segundo o nosso actual sistema de divisão.

O ensaio cristão
Os primeiros cristãos receberam dos judeus este costume de
reunirem semanalmente para ler os livros sagrados. Mas, à
Lei e aos Profetas, juntaram também os livros
correspondentes ao Novo Testamento. Por isso, resolveram
dividir também estes rolos em secções ou capítulos para
poderem ser lidos facilmente na celebração da Eucaristia.

Chegaram até nós alguns manuscritos antigos, do séc. V,
onde aparecem estas primeiras tentativas de divisões
Bíblicas. E por eles sabemos, por exemplo, que naquela
antiga classificação Mateus tinha 68 capítulos, Marcos 48,
Lucas 83 e João 18.

Este fraccionamento dos textos da Bíblia tinha permitido não
sistemática da palavra como também para estudar melhor a
Sagrada Escritura, pois facilitava enormemente encontrar
certas secções, perícopes ou frases que normalmente
levariam muito tempo a ser localizadas num volume tão
intrincado.

Foi um arcebispo que o fez
Mas, com o andar dos séculos, aumentou o interesse pela
palavra de Deus - pela sua leitura, estudo e conhecimento
mais exato.
Já não bastavam aquelas divisões litúrgicas, mas fazia falta
outra mais exata, assente em critérios mais académicos,
onde se pudesse seguir um esquema ou descobrir alguma
estrutura em cada livro. Além disso, impunha-se uma divisão
de todos os livros da Bíblia, e não apenas dos que eram lidos
nas reuniões de culto.

O mérito de empreender esta divisão de toda a Bíblia em
capítulos, tal como a temos actualmente, coube a Estêvão
Langton, futuro arcebispo de Canterbury (Inglaterra). Em
1220, antes de ser sagrado como tal, sendo professor da
Sorbonne, em Paris, decidiu criar uma divisão em capítulos,
mais ou menos iguais. O seu êxito foi tão retumbante, que
todos os doutores da Universidade de Paris, a adoptaram,
ficando assim consagrado o seu valor perante a Igreja.

O manuscrito conserva-se
Langton tinha feito a sua divisão sobre um novo texto latino
da Bíblia, ou seja, a Vulgata, que acabava de ser corrigido e
purificado de velhos erros de transcrição. Esta divisão foi logo
copiada sobre o texto hebraico, e mais tarde transcrita na
versão grega chamada dos Setenta.
Quando Estêvão Langton morreu, em 1228, os livreiros de
Paris já tinham divulgado a sua criação numa nova versão
latina que acabavam de editar, chamada Bíblia parisiense, a
primeira Bíblia da História dividida em capítulos.

Foi tão grande a aceitação desta minuciosa obra do futuro
arcebispo, que até os próprios judeus a admitiram para a sua
Bíblia hebraica. De facto, em 1525, Jacob Ben Jayim
publicou uma Bíblia rabínica em Veneza, que continha os
capítulos de Langton. Desde então, o texto hebreu adoptou
esta mesma classificação.

Até hoje, conserva-se na Biblioteca Nacional de Paris, com o
número 14417, a Bíblia latina utilizada pelo arcebispo de
Canterbury para o seu singular trabalho e que, sem ele
próprio imaginar, estava destinado a estender-se por todo o
mundo.



Mas, faltavam uma divisão menor, por versículos
Mas, à medida que o estudo da Bíblia ganhava em precisão e
minuciosidade, estas grandes secções de cada livro,
chamadas capítulos, mostraram-se insuficientes. Era
necessário subdividi-las em partes mais pequenas com
numerações próprias, a fim de localizar com maior rapidez e
exatidão as frases e palavras desejadas.

Uma das primeiras tentativas foi a do dominicano italiano
Santos Pagnino, o qual, em 1528 publicou em Lyon uma
Bíblia completa subdividida em frases mais curtas, que
tinham um sentido mais ou menos completo: os actuais
versículos.

Contudo, não caberia a ele a glória de ser o autor do nosso actual sistema de classificação de versículos, mas a Roberto Stefano, um editor protestante. Este aceitou a divisão feita por Santos Pagnino, para os livros do Antigo Testamento, e
actual sistema de classificação de versículos, mas a Roberto
Stefano, um editor protestante. Este aceitou a divisão feita
por Santos Pagnino, para os livros do Antigo Testamento, e
curiosamente, o dominicano não tinha posto versículos nos 7
livros deuterocanónicos (isto é, nos livros de Tobite, Judite, 1
e 2 Macabeus, Sabedoria, Ben Sira e Baruc), pelo que, Stefano
teve que completar este trabalho.

O trabalho definitivo
Ao contrário, a divisão do Novo Testamento não lhe
agradou, e decidiu substitui-la por outra, feita por ele próprio.
Seu filho conta que se entregou a esta tarefa durante uma
viagem a cavalo de Paris a Lyon.

Stefano publicou primeiro o Novo Testamento em 1551, e
depois a Bíblia completa em 1555. E foi ele o organizador e
divulgador do uso de versículos em toda a Bíblia, sistema que,
com o tempo, se viria a impor no mundo inteiro.

Esta divisão, tal como a anterior em capítulos, também foi
feita sobre um texto latino da Bíblia. Só em 1572 é que se
publicou a primeira Bíblia hebraica com os versículos.

Finalmente, o papa Clemente VIII fez publicar uma nova
versão da Bíblia em latim para uso oficial da Igreja, pois o
texto anterior, de tanto ser copiado à mão, tinha sido
deformado. A obra viu a luz a 9 de Novembro de 1592, e foi a
primeira edição da Igreja Católica com a divisão definitiva de
capítulos e versículos.

Não saiu totalmente bem
Deste modo, ficou constituída a fachada exibida actualmente
em todas as nossa Bíblias. Mas, longe de serem perfeitas,
estas divisões mostram muitas deficiências, que revelam o
modo arbitrário como foram feitas. Os estudiosos actuais
podem detectá-las, mas os seus autores não estavam, então,
em condições de conhecê-las.

Por exemplo, Estêvão Langton, no livro da Sabedoria
interrompe um discurso sobre os pecadores para colocar o
capítulo 2, quando o mais natural teria sido colocá-lo um
versículo mais acima, onde naturalmente começa. Outro
exemplo mais grave é o capítulo 6 de Daniel, que começa a
meio de uma frase inconclusiva, quando deveria ter sido posto
algumas palavras mais adiante.

Também os versículos mostram esta inexactidão. Um dos
casos mais curiosos é o de Génesis 2, no qual o versículo 4
abrange duas frases, pertencendo a primeira a um relato do
séc. VI, e a segunda a outro... quatrocentos anos posterior! E
ambos formam um mesmo versículo! Também em Isaías 22, a
a primeira parte do versículo 8 pertence a um oráculo do
profeta, enquanto que a segunda, de outro estilo e teor, foi
escrita duzentos anos mais tarde.

Vê-se, indubitavelmente, que o seu "criador" ia a cavalo entre
Paris e Lyon, quando as compôs.

De saber a viver...
há muito que aprender
A organização da Bíblia em capítulos e versículos foi o início
de um estudo cada vez mais profundo deste livro.
Hoje, conhecemos a Bíblia até aos mais pequenos detalhes.
Sabemos que tem:
1.328 capítulos,
40.030 versículos,
3.566.480 letras, no texto original.
Que a palavra Yahvé, o nome
sagrado de Deus, aparece
6.855 vezes.
Que o salmo 117 se encontra exatamente no meio da Bíblia.


A Bíblia foi sujeita a todos os estudos que se possam fazer. Agora só falta que nos decidamos, com o mesmo afinco, a viver o que ela ensina e a crer o que nos promete.
Ariel Álvarez Valdés,
Sacerdote argentino, biblista,
in Revista Bíblica, nº 290, págs. 13-16

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